terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Prevenção

1. O que é Prevenção?

* Ato ou efeito de prevenir;
* Disposição ou preparo antecipado;
* Trabalha com valores, sentido da vida e com o projeto existencial de cada ser humano.

2. Concepção Educativa de Prevenção:

* Não se pode confundir educação com informação, o mais importante é a atenção aos aspectos biopsicosociais do indivíduo, seus sentimentos, suas aspirações, expectativas, alternativas de prazer, sempre tendo em vista as suas necessidades de busca de identidade, auto-afirmação e auto-estima.

3. Considerações sobre a Droga:

* A droga faz parte de nossa realidade social;
* É necessário estarmos bem informados;
* O uso da droga é tão antigo quanto a humanidade;
* Em nossa sociedade o uso de drogas é algo comum ("beber socialmente", "utilizar medicamentos sem prescrição médica", etc.)



Claude Olievenstein:
"Os adultos tomam tranqüilizantes para suportar sua inserção social. Os adolescentes tomam alucinógenos para recusar passivamente essa mesma inserção".





4. Segundo a OMS, estaria mais sujeita a usar drogas a pessoa que:

* Desconhece os efeitos das drogas, ou possui informações equivocadas a respeito das mesmas;
* Possui saúde deficiente, e que por isso apresenta insatisfação com a qualidade da própria vida;
* Com personalidade fragilizada e pouco integrada, tenha facilidade na obtenção da droga.

5. Para que uma sociedade obtenha um consumo reduzido de drogas, a humanidade deve progredir em três aspectos:

a) Espiritual:
* Consciência ética;
* Compreensão da finalidade da vida;
* Esforço individual para a reforma íntima e a evolução espiritual.

b) Educacional:
* Crença no poder e no alcance da educação.
* Educar para formar e não apenas informar.

c) Político-Social:
* Mudanças nas políticas públicas para a melhoria na qualidade de vida (moradia, saúde, educação, atividades esportivas, culturais e artísticas, etc.).

6. Três Níveis de Prevenção:

a) Prevenção Primária:
* O objetivo é evitar a ocorrência do problema-alvo, isto é, diminuir a incidência. Previne o uso da droga antes que ele inicie (antes do primeiro contato com o produto).

b) Prevenção Secundária:
* Ocorre quando já começa a surgir o consumo das drogas. A instituição deve se abrir ao diálogo, marcar reuniões periódicas para que todos os assuntos sejam discutidos e esperar o momento próprio de chamar a família, com o consentimento do usuário.

c) Prevenção Terciária:
* Já existe a dependência de drogas, implica incentivar os usuários a procurar uma terapia adequada, incentivar o diálogo com a família, acreditar na recuperação, colaborar na reintegração social.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

O Coordenador de Comunidades Terapêuticas

* O Coordenador de uma Comunidade Terapêutica deverá ter no mínimo 5 (cinco anos) de sobriedade, e vivência do Processo Terapêutico na CT; ter Curso de Capacitação para tal função; não estar respondendo a nenhum processo jurídico; se casado bom marido e pai exemplar; se solteiro um comportamento que não o comprometa nem a instituição que porventura esteja representando como funcionário.

* Seu comportamento deverá ser o mesmo dentro ou fora da instituição. Isto quer dizer que os residentes de uma CT deverão espelhar-se nele para alcançarem a tão sonhada sobriedade.

* Um atributo que deverá ter o coordenador de CT, é de ser persuasivo e estrategista. Articulado, bom orador (falar e se expressar com facilidade), ser capaz de estimular, entusiasmar e persuadir com sua forma de expressão. A linguagem é a sua melhor ferramenta.

* Deverá ser capaz de manter conversas sociais (pequenos bate- papos) com qualquer pessoa e nunca lhe faltarem palavras. Estar atualizado em todos os sentidos. Ser empático, capaz de reconhecer e compreender o ponto de vista e preocupações dos outros, “ver” a situação através da ótica de outras pessoas, ter entendimento intuitivo de seus semelhantes. Possuir habilidade (aptidão) para motivar, estimular, persuadir e “vender” (a mensagem do Programa de Recuperação).

* Deverá obter resultados trabalhando com e através das pessoas – um trabalhador de equipe, um formador de equipes. Deverá ser extrovertido, misturar-se bem, relacionar-se com pessoas novas com facilidade, efetivo com grupos e pessoas... companhia agradável, falar muito bem em público. Delegar autoridade, ativamente interessado no desenvolvimento de pessoas e da organização.Um comunicador e “vendedor” de intangíveis... vender o que não existe (vender os benefícios e não o produto)... emocionalmente estimular e motivar as pessoas, ser bom político, sem ser hipócrita. Pessoas com este comportamento não costumam serem pegas de surpresa por atos/fatos, agem proativamente.

* Deverá ter Orientação Altruísta, ou seja, ser uma pessoa que tenha a convicção de que o mais importante seja “promover o valor que os outros tem”. Assim, motivadas pelo desejo de contribuir em tudo o que for possível para a realização pessoal dos demais, será possível descobrir o que há de melhor neles.
Particularmente quando a Extroversão é o fator mais alto, aliado a Agilidade na combinação, deverá tornar-se muito fluente, falar rápido – com volume. Seu estilo de expressão deverá ser animado, entusiasta e otimista. Convencer e motivar.
Deverá ter ênfase na iniciativa, ser auto- iniciador, ter impulso competitivo para conseguir que as coisas sejam feitas. Ter resposta rápida... Assumir riscos, ter senso de urgência, ser ambicioso por resultados. Ter impulso e ação para resultados, e também impaciente com rotinas e atrasos.O estimulo da agilidade deverá enfatizar suas qualidades como seguidor de regras, consciencioso, completo, preciso, particularmente preocupado com a precisão dos detalhes e com a “regra”. Deve ser uma pessoa que se preocupa. Não dever delegar detalhes facilmente e ser forte no acompanhamento dos mesmos. Rígido sobre pontualidade, correção, etc.

* Deverá ser impaciente por resultados, e também ser um auto-iniciador, bom companheiro de equipe, aquele que une não o que separa; e ainda ter bastante auto-confiança para tomar decisões sob pressão. Suas decisões deverão ser, consistentemente tomadas, de acordo com as políticas estabelecidas pela empresa, e dentro de seu limite de autoridade e responsabilidade já definidos. Sob este aspecto, e em geral, ser completamente precavido e deverá consultar seus superiores antes de tomar decisões ou atitudes em situações não-familiares, para as quais não exista nenhum direcionamento prévio através de políticas da empresa.

* Deverá sentir-se bem e seguro com grupos ou quando faz novos contatos, deverá ser gregário, extrovertido, e estar sempre vendendo num senso comum, possuir uma particular habilidade para treinar e desenvolver o melhor nas pessoas, e sentir-se orgulhoso em contribuir, para o sucesso do negócio. Deverá delegar autoridade e detalhes, e cuidadosamente os acompanhará de perto. Deverá pressionar os outros por resultados, usando seu lado persuasivo de uma maneira amiga e solícita. Não confundir maneira amiga, persuasiva e solícita, com “manipulação”. E ainda, aprender e reagir rapidamente... Trabalhar num rítmo muito mais rápido do que a média. Lidar com detalhes rapidamente e com exatidão,
Principalmente, aplicar o Regulamento da Comunidade Terapêutica, cumprindo à risca todos os artigos e parágrafos, sem privilegiar ou fazer acepção de pessoas.

Comentário sobre a Espiritualidade na CT.

Analisando estes escritos de Pe. Haroldo, deduzimos que a Espiritualidade na Comunidade Terapêutica, deverá estar centrada nos Doze Passos dos Alcoólicos e Narcóticos Anônimos pela espiritualidade que em si trazem.
Percebe-se uma grande influencia da Espiritualidade Inaciana na redação dos Doze Passos. Talvez seja porque Pe. Ed. Dowling, S.J. tenha colaborado diretamente na elaboração dos mesmos fundamentando-se nos EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS DE STº IGNÁCIO DE LOYOLA.

Jim Harbaugh. S.J., na contra-capa de seu livro OS 12 PASSSOS E OS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS, assim escreve: “Muitas pessoas em recuperação descobrem que o caminho espiritual que iniciaram com os 12 Passos leva a outros caminhos, às vezes surpreendentes, e pode até mesmo levá-las a querer explorar o caminho que Ignácio encontrou quase quinhentos anos atrás. Da mesma forma, pessoas que fizeram os Exercícios Espirituais podem, subseqüentemente, achar que precisam dos 12 Passos”.

Harbaugh, diz que o método de seu livro será de começar com o texto mais antigo, os Exercícios, e traduzi-lo pouco a pouco para a linguagem dos 12 Passos. Como acontece com qualquer tradução, isso pode levar mesmo alguém que conheça a versão mais antiga a uma nova apreciação do texto. E os recém-chegados à recuperação podem vir a perceber que essa sabedoria muito antiga é tão relevante para eles e para suas lutas como na época em que foi concebida. Este é o ponto: Com os 12 Passos, o AA se conectou a um filão de sabedoria espiritual existente há milênios. Os Exercícios Espirituais são um veio nesse filão. E nós podemos e devemos explorá-lo.

Se buscamos o DESPERTAR ESPIRITUAL, através da Espiritualidade Inaciana, devemos nos lembrar que numa Comunidade Terapêutica, interagimos também com a natureza, os mundos animal, vegetal e mineral.. Pois como laborterapia, temos as atividades de horticultura, cuidado com os animais, mexemos com fogo, terra, ar, água, etc. Desta forma também devemos cultivar a espiritualidade de São Francisco de Assis, que além de Padroeiro dos Alcoólicos Anônimos, é também considerado o Santo da Ecologia.

Se observarmos com atenção veremos que tanto Ignácio de Loyola, Francisco de Assis, Bill e Bob tiveram algo em comum. Todos eram mundanos. Todos chegaram a um Fundo-de-Poço pessoal. Francisco não consegue ser um valente cavaleiro durante as Cruzadas e abre mão de sua condição de um próspero comerciante em Assis; Ignácio também é ferido durante uma batalha e passou por um longo período de reabilitação, onde tendo um DESPERTAR ESPIRITUAL, renuncia a sua vontade que era de fazer carreira militar e também torna-se um servo de Deus; Bill arrasado financeiramente pela quebra da Bolsa de Valores, com poucas qualificações para emprego entra num ciclo de bebida e internações hospitalares. Foi durante uma destas internações que o mesmo teve uma experiência mística e também deixa-se converter a um novo estilo de vida, que futuramente influencia o Dr. Bob a também mudar de comportamento.Todos passaram por momentos difíceis que os trouxeram à Luz, pela Conversão. Isto é todos tiveram um Fundo-de-Poço, ou melhor tiveram um Fundo-de-Posso. Todos atenderam de uma forma um tanto sofrida, ao chamado de Deus para a sua missão. Tomaram a decisão de entregar suas vontades e suas vidas nas mãos de Deus, na forma em que O concebiam, conforme o Terceiro Passo do AA.

Fiel aos ensinamentos de Pe. Haroldo, conhecendo os Exercícios Espirituais de Stº Ignácio, seguidor do estilo de vida de São Francisco, e também a exemplo de Bill de Bob, um dependente químico concluo que este deve ser o Processo de Conscientização e Formação na Comunidade Terapêutica.


Sérgio Vianna
Coordenador Técnico de CT'S
FEBRACT-DC3/98-CAMPSP

Grupo Operativo

"Não é um termo utilizável para se referir a uma técnica específica de coordenação de grupos nem de um tipo determinado de grupo, em função de um objetivo, como poderia ser grupo terapêutico, grupo de aprendizagem ou grupo de discussão, mas se refere a uma forma de pensar e operar em grupo, que pode se aplicar à coordenação de diversos tipos de grupos".
(1957 – Enrique Pichón Revière)

Existem, portanto, grupos operativos terapêuticos, familiares, de aprendizagem, de reflexão, entre outros.

* Conjunto de pessoas com um objetivo comum o qual tentam abordar, operando como Equipe. Supõe a necessidade de que os membros do grupo realizem um trabalho ou tarefa comum a fim de alcançarem seus objetivos. Tal tarefa se constitui, portanto, em um organizador dos processos de pensamento, comunicação e ação que se dão em e entre os membros do grupo. Ainda que seja de forma casual todo o grupo se reúne para “fazer” algo; cada membro coopera em alguma atividade de acordo com suas capacidades individuais, esta cooperação é voluntária.

* Instrumento de trabalho, método de investigação, que cumpre além disso, uma função terapêutica. Em qualquer de seus múltiplos campos de aplicação, aponta como objetivo identificar os obstáculos que a tarefa oferece ao grupo, portanto o grupo deve estar centrado na tarefa específica que se propõe realizar.

* Deve ser:
DINÂMICO – REFLEXIVO – DEMOCRÁTICO

O Grupo Operativo é definido como um conjunto restrito de pessoas, ligadas entre si por constantes de tempo e espaço, articuladas pela mútua representação interna, cujo objetivo final é a execução de uma tarefa, seja de forma explícita ou implícita".

Grupo Terapêutico

1) Objetivo:
Elaboração de dificuldades pessoais relacionadas com o presente do indivíduo, visando a ajudá-lo a melhorar sua vida de relações. A experiência mostra a importância de se reunir dependentes químicos em grupos homogêneos, ou seja, só de dependentes químicos.

2) Tamanho do Grupo:
De 4 até 20 elementos, considerando-se que o tamanho do grupo dependerá de seus objetivos. Um grupo que tenha como objetivo a manutenção da abstinência pode ser maior, mas quando se propõe a manter a abstinência e melhor adaptar seus membros o número limita-se ao máximo de 10 recuperandos.

3) Técnica:
A técnica que parece ser usada pela maioria dos especialistas em dependência química é a terapia suportiva, onde o mais importante é o contínuo confronto entre o que o indivíduo diz estar vivendo e o que o grupo percebe ser a realidade.

4) Contrato Terapêutico:
Quando o grupo é formado por internos de uma CT, o contrato entre estes e o terapeuta poderá ser verbal, ficando definido horários, local das sessões, objetivo do tratamento através da psicoterapia de grupo, prazo para tratamento, nenhum segredo com os membros do grupo, sigilo com pessoas estranhas ao grupo.

5) Alta:
A prática indica que não se deve dar alta com menos de 9 meses de internação na CT e abstinência, período este em que o indivíduo deverá estar readaptado ao ambiente familiar e social, bem como em boas condições de saúde física e mental.

O Processo Terapêutico na Comunidade Terapêutica

A dependência química é uma doença que atinge as pessoas indiscriminadamente de tal forma que, uma vez instalada, provoca a desestruturação da pessoa em todas as áreas do ser: física, mental, espiritual, social, familiar e profissional.
É nesse estado que está a pessoa que busca tratamento.

O tratamento tem por objetivo:
"Parar a doença e Recuperar o indivíduo".

Esses objetivos estão intimamente relacionados e se completam entre si, o que quer dizer que um não ocorre sem o outro e vice-versa. Para que haja a recuperação da pessoa é preciso não usar drogas, mas só será possível sustentar a abstinência se houver uma genuína e efetiva recuperação pessoal. Assim, o processo terapêutico é toda atitude, ação ou circunstância que propicie essa reestruturação. (Ex: casa em reforma)
Portanto, o processo terapêutico se dá em todas as relações, atividades e ambiente proporcionados pela comunidade terapêutica e não só no “setting terapêutico” que é o atendimento individual ou grupal com um objetivo terapêutico específico e dirigido ou coordenado por um técnico ou pessoa preparada.
Na verdade, tudo dentro da comunidade terapêutica deve contribuir para que o dependente alcance uma forma alternativa de reorganização pessoal (no sentido mais amplo do termo) com novos padrões de comportamento e pensamento, ou seja, um novo estilo de vida.
O processo terapêutico permite ajudar a pessoa a reconhecer esses comportamentos a fim de viabilizar a mudança. Por isso é importante a criação de algumas condições básicas para que o processo possa ter lugar.

1) Auto-Responsabilidade
Todo o tratamento deve ser centrado na auto-responsabilidade, o que quer dizer que enquanto a pessoa estiver em tratamento depende única e exclusivamente dela aprender. Nenhum membro da equipe ou membro do grupo pode fazer a pessoa aprender aquilo que não quer. Somente ela pode decidir se vai participar ativamente do tratamento e permitir que o processo terapêutico se dê.

2) Comunicação Direta:
Em função da doença, a comunicação do dependente torna-se pobre ou distorcida. Daí a importância de se desenvolver a prática der falar diretamente ao outro. Isso não só significa pedir diretamente o que se quer, mas também falar para a pessoa na sala de reunião ou em outra situação. Para isso, é importante aprender a olhar para a pessoa quando estiver falando com ela e usar sempre os pronomes “EU” e “VOCÊ” ao invés de “Ele” ou “Ela”.
Ex: é inadequado quando se está falando de alguém que está no grupo dizer “ele fez isso” ou “ela disse aquilo”.

3) Ouvir Atentamente:
Significa estar atento para tudo que a pessoa diz. 80% de uma mensagem é dita em palavras. Portanto, é importante ficar atento para o tom de voz da pessoa, sua expressão facial, pausas e postura corporal, pois “O Corpo Fala”.

4) Amor Sincero:
É definido como se preocupar com uma pessoa a ponto de dizer a ela exatamente o que você vê e sente, ao invés de dizer a ela exatamente o que você vê e sente, ao invés de dizer o que a pessoa gostaria de ouvir. Cada membro da CT precisa ter em mente que é vítima de uma doença que eventualmente o matará, se ele não mudar. Portanto, deve se preocupar o suficiente com os demais para praticar o amor sincero é essencial para penetrar nos escudos emocionais de defesa criados pela doença.

5) Arriscar-se:
Significa tentar a sorte com algo novo, experimentar novas formas de agir. Fazer algo novo, algo que nunca se tentou antes é sempre arriscado, mas muitas vezes pode ser a única forma de aprender. A pessoa tem que tentar alguma coisa nova para poder crescer interiormente e emocionalmente. Arriscar-se pode ser amedrontador e, por vezes, doloroso. Entretanto, todo crescimento causa alguma forma de dor. Porém, crescer enquanto pessoa é absolutamente fundamental à recuperação.

6) Feed-Back:
Significa compartilhar nossas impressões de alguém no grupo, ou seja, é a impressão que “eu tenho de você” neste momento. O feed-back é uma forma de testar a realidade uma vez que permite que cada um vivencie de que forma suas ações afetam os outros. Por isso é importante não só desejar proporcionar feed-back, mas também receber feed-back de forma que possa crescer também.

7) Confidencialidade:
Significa que o que é dito no grupo, permanece no grupo. É óbvio que as pessoas só irão falar de assuntos de sua intimidade se se sentirem seguras e protegidas. Uma forma de sentir-se seguro e protegido é tendo certeza de que qualquer coisa compartilhada no grupo não será mencionada ou comentada fora do grupo (Mesmo entre pessoas que estavam no grupo, pois pode afetar o feedback).

Tais condições funcionam como uma espécie de exoesqueleto que propiciam o processo terapêutico. (Ex. suporte externo em cirurgias ortopédicas). Quando o dependente chega para iniciar o tratamento, ocorre uma “parada forçada” das drogas, ou seja, o ambiente provoca a abstinência. Isso é absolutamente necessário para que a pessoa recupere condições físicas e mentais mínimas a fim de iniciar o trabalho de conscientização da pessoa.

Conhecendo uma Comunidade Terapêutica

O programa terapêutico-educativo, a ser desenvolvido no período de tratamento, da Comunidade Terapêutica tem como objetivo ajudar o dependente químico a se tornar uma pessoa livre através da mudança de seu estilo de vida. A proposta da CT deve considerar que o dependente químico pode desenvolver-se nas diversas dimensões de um ser humano integral.

A CT é uma ajuda eficaz para quem tem necessidade de liberar as próprias energias vitais para poder ser um HOMEM em seu sentido pleno, adultos e autônomos, capaz de realizar um projeto de vida construtivo, de aprender a estar bem consigo mesmo e com os outros sem a “ajuda” de substâncias psicoativas.
Podemos utilizar a definição de CT de Maxwell Jones:
“grupo de pessoas que se unem com o objetivo comum e que possuem uma forte motivação para provocar mudanças”.

Este objetivo comum na maioria das vezes surge em um momento de crise onde o indivíduo apresenta uma desestruturação na sua vida em todas as áreas: física, mental, social, espiritual, familiar e profissional. É nesse momento que as pessoas diminuem as defesas, resistências e demonstram maior disponibilidade e abertura a mudanças porque não tem mais nada a perder. O objetivo da CT é:
“Parar a doença (que é incurável) e recuperar o indivíduo. Resgatar a auto-estima do dependente e cuidar de sua reinserção social”.

O papel da Equipe Transdisciplinar é ajudar o indivíduo a desenvolver seu potencial.
Para que a equipe seja eficaz é muito importante acreditar, independentemente de qualquer comportamento que o residente tenha tido, que ele pode MUDAR. Se não houver esta credibilidade, porque alguns residentes estão mais comprometidos e com maiores dificuldades para mudar, existe o risco de “abandono” desses residentes. Se a equipe acreditar que TODOS podem mudar dedicará a atenção que cada um precisa para que a mudança ocorra.

Outro aspecto importante a ser ressaltado a respeito da equipe é a transdisciplinaridedade. Antes de serem os profissionais da CT, são participantes e devem saber respeitar as regras desta para que as relações aconteçam em um ambiente familiar, "pois em uma família as pessoas se relacionam enquanto pessoas, não enquanto cargos, profissões". Este conceito interliga todos os setores e as responsabilidades são transferíveis.Por exemplo: o psicólogo pode assumir a responsabilidade do enfermeiro em uma situação de primeiros socorros, assim como orientar o residente responsável pelo setor de limpeza como deve ser feita a faxina geral da CT.

Nenhum elemento da equipe fica restrito, limitado ao seu cargo, pois em termos de funções existe um leque de responsabilidades. É evidente que esta transdisciplinariedade deve estar clara para todos da equipe para que não aconteçam “melindres” ou ingerências nas funções específicas de cada cargo como, por exemplo: o atendimento psicológico que é responsabilidade unicamente do psicólogo.

O ambiente da CT deve possibilitar a aprendizagem social oferecendo a oportunidade de interagir, escutar, aprender, projetar, envolver-se e crescer de maneira que normalmente, reflita a capacidade e o potencial individual e coletivo das pessoas que dele fazem parte. O comportamento começa a mudar através da auto-iniciativa do residente. Como ele vem de uma vivência de subcultura (valores não aceitos pela sociedade) devemos solicitar que ele exercite o AGIR COMO SE FOSSE honesto, pontual, solidário, etc. (valores aceitáveis pela sociedade) para que possa internalizá-los e vivenciá-los através da mudança do estilo de vida. A dinâmica deste processo depende, em parte, da organização social da CT e, em parte, da motivação das pessoas envolvidas. Os residentes são apoiados e atendidos pela equipe transdisciplinar: Existe uma divisão de trabalho e sobrevivência da CT. O enfoque deve ser sobre o processo e, se este é correto, teremos grandes chances de ter um resultado positivo como conseqüência.

O programa para ser eficaz deve ser aberto tanto internamente, entre os membros que fazem parte do ambiente social, quanto externamente com os devidos cuidados e respeito às regras fundamentais (as fronteiras da CT devem ser protegidas, mas as informações devem entrar e sair).
É claro que, como diz Harold Bridges, uma organização social aberta é: ... mais exposta às transformações, e justamente por isso, mais vulnerável. O processo é positivo, mas apresenta riscos, pois existem pessoas que querem alcançar resultados sema ter experiência para tal”.

Na CT devemos considerar tudo o que possibilita a criação de um ambiente terapêutico e educativo (já que a CT é um grupo de auto-ajuda permanente onde os componentes interagem a todo o momento): o número de residentes, suas experiências, idade, classe sócio-econômica e cultural, organização e regras, valores, divisão do trabalho e respectivas funções, administração da autoridade, instrumentos terapêuticos, estímulos educativos, o número e qualificação da equipe transdisciplinar.

As regras fundamentais são:
* Não ao uso de substâncias psicoativas;
* Não a violência;
* Não ao sexo.

Sobre a regra de renunciar, temporariamente, às relações sexuais é importante ressaltar que a sexualidade é uma energia de comunicação e a interrupção das relações sexuais estimula o residente a comunicar-se de outras maneiras tendo uma nova forma de aprendizado social. Permite também desenvolver aquela parte da afetividade que, até agora, permaneceu escondida e foi negada devido aos preconceitos em função de experiências pessoais.
Além dessas três regras fundamentais, são feitas duas solicitações, temporárias, para poder criarmos os pressupostos do trabalho pessoal e social sem jamais desrespeitarmos o direito fundamental à saúde e a liberdade de sair da CT no momento que a pessoa assim desejar:
* Renunciar totalmente a liberdade de movimentar-se e sair da CT sem, antes, falar com o grupo e a equipe transdisciplinar;
* Respeitar o contrato de auto-ajuda participando sempre de todas as atividades da CT.

O indivíduo em um grupo ou em uma CT que se recusa a colaborar prejudica o bem-estar do grupo. O indivíduo não deve ser prejudicado em função do grupo ou vice-versa, pois é importante que ele aprenda a entrar em uma relação equilibrada.
As regras devem ser definidas, tanto morais quanto éticas, e elaboradas de acordo com as necessidades da CT. Podem ser discutidas e alteradas, se necessários for, a partir de um consenso entre residentes e equipe transdisciplinar. É importante compreender que as regras existem para serem respeitadas e que sua transgressão leva a conseqüências que devem ser assumidas.

A equipe transdisciplinar deve garantir a todo residente o conhecimento e compreensão das regras para poder exigir o cumprimento das mesma. Existem cinco áreas para que alguém funcione em um determinado nível de equilíbrio.
São elas: família, pares, trabalho/escola, lei (regras sociais) e espiritualidade.
O desequilíbrio em uma dessas áreas pode desencadear em uma pessoa algumas relações disfuncionais. Levando isto em consideração devemos ter presente que um residente, muito provavelmente apresenta desequilíbrio em quase todas essas áreas o que faz com que ele se relacione de maneira completamente disfuncional consigo mesmo e com os outros.Para ajudá-lo devemos criar na CT um ambiente aonde ele possa se “exercitar” (como em uma academia de ginástica aonde exercitamos todo o corpo) e ter a compreensão necessária de que a droga é, apenas, um sintoma de algo mais profundo que precisa ser trabalhado e que, com certeza, está ligado a estas cinco áreas.

O processo de recuperação está diretamente inter-relacionado ao trabalho a ser desenvolvido nas cinco áreas, pois não podemos trabalhar as questões: família, espiritual, trabalho e desconsiderar as áreas da lei e dos pares e assim sucessivamente.
No ambiente da “ativa” aonde viviam anteriormente não existiam condições adequadas para serem pessoas com dignidade (como podiam viver corretamente morando embaixo da ponte, roubando, se prostituindo, etc.).
Na CT devemos oferecer aos residentes confidencialidade e um ambiente saudável, aonde exista seguranças física, psicológicas e sociais, considerando que não é a estrutura física que dá valores e sim pessoas (residentes e equipe que dela fazem parte).

A funcionalidade dentro da CT (micro-sociedade) deve ser muito similar à sociedade de origem para que o indivíduo possa experienciar situações para poder, depois, viver na sociedade. O programa terapêutico-educativo deve ser subdividido hierarquicamente de acordo com a maturidade do residente. Cada pessoa tem um papel na sociedade por isso, assim que o indivíduo é aceito como residente na CT, passa a ter um papel em sua estrutura, uma identidade e começa a se familiarizar com hierarquia, autoridade, responsabilidade, pontualidade, etc.
Através da interação individual e do grupo consegue-se grande compreensão da problemática do indivíduo, mas considera-se que a aprendizagem através da experiência (errando, acertando e experimentando as conseqüências) corresponde à influência mais eficaz para se atingir uma mudança duradoura (aprendizagem social).
Além das inúmeras possibilidades de aprendizagem social, a estrutura da CT deve ter uma certa mobilidade para oferecer e estimular a iniciativa do residente objetivando seu crescimento.

A conduta, o comportamento é sempre algo objetivo, observável aonde encontramos os progressos realizados pelo dependente. Na conduta encontramos os frutos e é aonde se concretizam os sucessos e as dificuldades do trabalho pessoal do residente nas áreas cognitivas, afetiva e espiritual.
A solicitação gradativa de mudanças na CT ajuda o residente a se responsabilizar pelo seu próprio processo de crescimento e participar ativamente no processo dos outros residentes e da administração do processo terapêutico-educativo da CT.